Em 2005 completou-se 25 anos da morte de duas mulheres notáveis. Representantes de uma geração que nas décadas de 20 e 40 iniciou o caminho para uma ampla participação feminina no cenário político, social e cultural do país.
Adalgisa Nery (1905-1980) era uma menina pobre, filha de um modesto funcionário da prefeitura do Rio de Janeiro. Perdeu a mãe aos 8 anos e teve uma infância triste, revoltada – interna de um colégio de freiras, já era vista como “subversiva” por defender as órfãs – categoria comum nos colégios religiosos da época.
A única educação formal que recebeu na vida foi a do curso primário, feitos dos 9 aos 12 anos. Aos 15 anos, apaixonou-se por um rapaz vizinho – o pintor e poeta Ismael Nery (1900-1934) um dos percussores do modernismo no Brasil. Contrariando sua família, aos 16 anos, Adalgisa casou-se com Ismael.
Nos 12 anos seguintes, a adolescente mergulhou numa vida trepidante, nunca monótona que lhe proporcionou a entrada em um sofisticado circuito intelectual graças a freqüentes reuniões em sua casa, uma estada de dois anos na Europa com o marido e a conseqüente aquisição de cultura.
Dizia dela o crítico Marido Pedrosa: “A jovem mulher, bela como um jarro de flores, dava com sua presença, o toque de graça terrena e feminina àquelas reuniões, por vezes perdidas em especulações abstrusas.”
O casal teve 7 filhos, todos homens. Apenas o mais velho (Ivan) e o mais novo (Emmanuel) vingariam, todos os demais, inclusive um casal de gêmeos não sobreviveriam além de um ano de idade. Sobre esse fundo de tragédia, o brilhantismo proporcionado pelo talento ímpar de Ismael, filho de família rica e católica – mas assombrado pela sinistra figura de sua mãe, que era uma fanática religiosa.
Seu maior sucesso foi A Imaginária, romance publicado em 1959 – onde a escritora usando a personagem Berenice narra seu maior tormento ao lado do marido. Adalgisa descreve como o fascínio que sentia pelo marido no inicio do casamento foi substituído por um verdadeiro sentimento de terror pela violência que ele podia assumir, na vida cotidiana. Assim, fala de sua morte: “Aquele homem tão amado por mim, a quem eu havia dado todo o meu amor, partia, desatando a vida dos sofrimentos físicos e morais (...) Mas havia deixado sobre meu corpo todos os desabamentos, todas as ruínas, todos os desesperos e todos os desencantos. Era um amontoado de misérias e desgostos difíceis de serem depurados pela minha idade.”
Em 1937 lançou seu primeiro livro de poesias e seguiu trilhando o caminho da política ao se casar com o jornalista e advogado Lourival Fontes. Ao lado dele viajou para o México onde recebeu a condecoração mais elevada, a Águia Asteca, por conferências e artigos que fez sobre a grande mexicana Juana de la Cruz. Foi a primeira mulher na história a receber essa honraria.
O casamento com Lourival chegou ao fim quando ele se apaixonou por outra mulher 13 anos depois – o que a deixou profundamente abalada. Mas logo reegueu-se a mulher de fibra e valentia que voltou-se definitivamente para a política, sendo eleita deputada três vezes.
Poema ao Silencio
Silencio, cobre meu pensamento e o meu coração
Cobre o meu corpo do desejo dos homens
E a minha sombra da luz do solCobre a te a lembrança dos meus passos
E o som da minha voz
Cobre a minha caridade e a minha fé
A vontade de morrer e também a de viver
Estende-te sobre o colorido das paisagens
Interpõe-te na minha respiração e no meu pestanejar
Cobre-me desde o início da minha concepção
Enrola-te no duplo de mim mesma
Transforma-me em fragmento de ti próprio,
Penetra no meu principio e no meu fim,
Cobre-me bem, com tanta amplitude e intensidade
Que possa eu ser esquecida
E me esquecer por toda a eternidade!
Adalgisa Nery
“Nascida para o pecado”
Assim se definia a Poeta Gilka Machado – considerada hoje figura importante do nosso simbolismo literário e uma precursora do modernismo e sobre a qual se multiplicam teses universitárias, no Brasil e no exterior.
Sua poesia era totalmente popular e na época era apenas considerada como “imoral”.
Gilka começou a escreveu aos 13 anos, estimulada principalmente pela mãe, que foi uma artista de teatro de rádio. Em 1910 casou-se com outro poeta, Rodolfo de Melo Machado, que faleceria em 1923, deixando-a com dois filhos, Hélios e Eros (famosa como Eros Volúsia, bailarina que misturava tradição clássica com ritmos afro-brasileiros).
De 1915 a 1968 – Gilka lançou 11 livros de poesias, incluída uma edição feita na Bolívia. Sua obra completa foi publicada em 1978 – dois anos antes de sua morte e reeditada postumamente, em 1991.
Em 1977, um grupo de literários, liderados por Jorge Amado propôs sua candidatura à Academia Brasileira de Letras (ABL), onde seria a primeira mulher a entrar, mas ela não aceitou.
Em 1979, a ABL lhe daria o prêmio Machado de Assis. No mesmo ano, a Assembléia Legislativa do rio prestou uma homenagem à mulher brasileira na pessoa de Gilka. Mas apesar disso, até hoje a grande maioria das histórias literárias nem ao menos mencionam seu nome.
Paticularidades
Muitas vezes, a sós, eu me analiso e estudo,
Os meus gostos crimino e busco, em vão, torcê-los
É incrível a paixão que me absorve por tudo
Quanto é sedoso, suave ao tato: a coma... os pêlos...
Amo as noites de luar porque são de veludo
Delicio-me quando, acaso, sinto pelos
Meus frágeis membros, sobre o meu corpo desnudo
Em carícias sutis, rolarem-me os cabelos.
Pela fria estação, que aos mais seres eriça
Andam-me pelo corpo espasmos repetidos,
Ás luvas de camurça, aos boas, a pelica...
O meu tato se estende a todos os sentidos,
Sou toda languidez, sonolência, preguiça,
Se me quedo a fitar tapetes estendidos.
Gilka Machado